A doença! A morte! E o luto!

É esta a ordem que precedeu meus dias! O luto é a fase que me encontro! Hoje enterramos minha mãe.

Começo por ela. Um ser de luz. Mas uma mãe como tantas outras. Igual a tantas. Uma entre tantas. Mas ela foi “minha”. 

Minha mãe me deu algumas oportunidades maravilhosas. A primeira delas a escolha do meu pai. Não poderia ter feito melhor. Depois agora ELES e não somente ela, me presentearam com a vida. Foram os portais que Deus escolheu para que eu pudesse viver. 

Ganhar a vida sendo filho dos meus pais trouxe muitos ganhos. O maior deles, viver ao lado dos meus irmãos, aprender com eles e desfrutar do amor dos meus pais. Não poderia ter feito melhor. 

Voltemos a minha mãe e meus ganhos. Eu nasci depois de duas tentativas de dar a luz, então vim depois de dois abortos. Irmãos que não puderam viver ou que cederam seu lugar para que EU o pudesse fazer. E é uma honra.

Mas sendo este filho. O que pode viver, me trouxe um carinho excessivo de minha mãe. Ela me tomou como SEU e pouco me dividiu com o mundo. Foi difícil sair de baixo de suas asas. Acho que até ontem parte de mim ainda vivia lá. Recebi tudo em excesso. O amor e o zêlo. Foi difícil, confesso. “Água demais também mata a planta”. Teve vezes de eu precisar fugir de tanto amor.

Mesmo depois de adulto este zêlo se fez presente. Ao ponto de meus irmãos brincarem que eu era o preferido.

Cresci assim. Encharcado de amor.

Minha mãe. Minha inspiração. Transbordou este amor a vida toda. Não só por ou meus irmãos. Mas por todos que nos cercavam. Meu pai, seus pais, seus irmãos, nossos vizinhos, nossos professores, o pessoal da igreja. Todos amavam e eram amados por minha mãe. Ontem eu ouvi assim: sua mãe era nossa mãezona. Fez sentido.

Os amigos meus e dos meus irmãos eram seus filhos também. Logo ela os adotava, trazia para dentro de casa e dividia o que a gente tinha inclusive o amor.

Minha mãe era gente simples. Exibia a gente feito troféu e tinha sempre na ponta da língua uma história boa pra contar. Sabe o primo, do vizinho da Dona coisinha, que morava na rua de baixo? Ninguém sabia. Mas ela sim. Ela conhecia a todos e todas histórias. Sempre sorrindo. Seu coração batia fora de seu corpo. Sempre foi evidente.

Sair com minha mãe era torturante. Nos restaurantes era a última a sentar e constantemente se levantava ou ficava conversando com a mesa ao lado. Tratava os garçons e os donos pelo nome. Com amor e simplicidade. Bom… confesso. Herdei isso dela. Depois de tanto criticar, assumo que sou igualzinho, que faço igualzinho e farei ainda mais porque é uma honra.

Mas uma pessoa tão boa. Também tem é cheia de defeitos. Precisa equilibrar. E o pior dela era ela mesma. Seu amor era externo e não dava espaço para seu amor próprio. Vaidade quase nenhuma. Uns dois vestidinhos. Dois sapatinho. Nada de maquiagem. Cabelo e unha uma vez ou outra quando meu pai cobrava. Brinco, quase nunca. Um batonzinho só para acompanhar o par de olhos de mel.

O seu dinheiro era para o próximo. Para me ajudar muitas vezes. Nos presentear. Comprar coisas para os netos. Pagar dízimos. Quitutes dos lugares mais improváveis. Plantas, tecidos e tudo que ela não necessitava. Ela era a última da fila.

Uma vez mencionei para ela como faria uma fantasia para meu filho e 4 dias depois ela me mandou buscar que estava pronta. Isso sem sair de casa. Tudo pelo celular e por PIX que ela dominava.

Aos poucos ela negligenciou a si sua saúde. Se alimentava mal. Gostava de docinhos, lanchinhos, chicletinhos, refrigerantes, salgadinhos e tudo que não era saudável. Arroz, feijão, salada, nada.

E a vida começou a cobrar sua parcela. Uma gripe aqui. Um incômodo abdominal ali. Uma dor no joelho que a impedia de várias coisas. Uma obesidade que também lhe limitava. E veio a conta. Pneumonias. Anemias. Até chegarmos ao quadro final.

Sabe, a doença não é nada daquilo. Foi bondosa com minha mãe. Foi dando avisos. Veio lenta. Quase caridosa. Mas minha mãe não tinha mais força. Achamos até que tinha desistido de viver.

A doença nos permitiu despedir da minha mãe. Parar nossas vidas para viver com ela. Dividir com ela. Nunca fomos separados ou ausentes mas a doença de minha mãe nos uniu ainda mais. Permitiu a todos baixarem as barreiras.

Nos últimos dias junto a ela no hospital precisamos dar comida em sua boca, água, remédios, precisamos devolver a ela tudo que ela fez com tanto amor por nós. A doença e ela nos deu a oportunidade de retribuir um pouquinho a minha mãe. Sei que ela sofreu. Mas foi só através da doença que chegamos tão perto do coração da minha mãe. A humildade do servir. De estar a sua plena disposição.

Chegou o momento de nos despedir do nosso anjo e deixá-la voar junto à Deus. E cada um de nós teve um último momento com ela. Meu pai encaminhou-a a UTI. Eu fui o primeiro a visita-la. Depois meu irmão. E por fim minha irmã. E então ela baixou a guarda. E no dia seguinte foi morar com Deus. Foi alegrar os céus e os tantos que partiram antes dela.

Aquele coração enorme que batia fora dela falhou. Deu sua última batida no dia 23 as 10 horas. Não teve visita naquele dia. 

Neste momento. Estou triste pela despedida. Mas todos nós. Eu, meus irmãos e meu pai, fizemos tudo pela nossa mãe. Temos o coração em paz. Um sentimento de dever cumprido. Minha alma está leve.

Um último adeus e hoje ela finalmente pode entrar na morada do PAI.

Mãe. Siga em paz. Obrigado por tudo. Pela vida, por tudo que lhe custou. Pelos sorrisos, pelos puxões de orelha, pelas caras feias, pelas palavras amigas. Por tudo. Você foi a mãe perfeita para nós. A esposa perfeita para nosso pai. A irmã, filha e amiga que todos puderam se despedir hoje.

Vá em paz. Nós vamos ficar mais um pouco. Um dia a gente se encontra novamente. Por hora você vive em nossos corações, em nossas lembranças felizes e nos netos que tanto se assemelham a você. Olhar para eles vai ser a certeza que sua vida se estendeu. E que a gente entendeu tudo certo. Era isso que você veio nos ensinar. Gratidão por tanto. Te amo para sempre.

Amo mais que chocolate! (Frase oficial da Neusinha).

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