Nov 122020

A importância da nossa criança interior

Criança interior, porquê eu falo tanto sobre isso? Isso é realmente importante? Leia esse texto e tire suas dúvidas. Tenho certeza que depois da leitura você vai querer se reconectar com a sua.

Na psicologia popular e também na psicologia analítica, o termo “criança interior” se refere ao aspecto infantil de um indivíduo. São experiências vividas na nossa infância (boas e más) guardadas no nosso inconsciente e os modelos de comportamentos que adotamos em cada situação. É tudo aquilo que aprendemos, e da maneira como aprendemos, durante a nossa infância e como aquilo nos influenciou/marcou. Os modelos de atitudes e pensamentos que criamos para podermos lidar com a vida e suas situações da melhor maneira possível. Sempre buscando a manutenção da vida e viver sem dor/culpa. Diante de tais experiências, desenvolvemos padrões de respostas (sentimentos, pensamentos e ações) e replicamos isso de forma automática hoje, mesmo estando adultos.

Mas se são experiências da nossa infância, porquê isso nos afeta hoje? Bom, tudo que vivenciamos nos afeta (de maneira positiva ou negativa, depende da interpretação que damos as vivências). Se foi algo prazeiroso certamente vamos querer repetir com mais frequência ou até abandonar, porque era parte do nosso mundo infantil e hoje como adulto não nos damos o direito a estes tipos de experiência. Por outro lado se foi algo desconfortável, traumático ou pesado, e isso pode ser apenas uma interpretação infantil e fantasiosa, vamos querer esconder, bloquear ou excluir, muitas vezes criando mecanismos para isso. Mas fica marcado e guardado no nosso inconsciente e está lá, sempre pronto a voltar a ativa.

TUDO NA INFÂNCIA TEM OUTRA MEDIDA

Tente lembrar-se de quando você era criança com 5 ou 6 anos de idade. A vida tinha uma dimensão diferente. Tudo era maior, mais forte, mais intenso. O nosso mundo parecia mais colorido, lúdico e nos sentíamos protegidos por nossos pais. Talvez sua vida tenha sido o oposto disso. Mas eu vou explicar de uma maneira que ficará mais fácil compreender.

Agora, imagine que você “criança” (e da mesma maneira que uma criança de 5 anos pensa) queria ficar perto dos seus pais e eles precisavam sair para trabalhar. Qual era o seu sentimento naquele momento? Talvez o de rejeição. Pois foi a interpretação de uma criança sem a maturidade que você tem hoje, a um fato: papai/mamãe precisa trabalhar. Como criança fica o pensamento que eles não ficaram com você porquê eles não te amavam ou você devia ter feito algo de errado para eles agirem daquela maneira. A um simples fato, nós damos um outro colorido e é aquele sentimento que fica guardado no nosso inconsciente. Neste caso o de abandono.

Creio que ficou mais simples agora. Hoje como adulto, pensamos diferente e compreendemos a real necessidade dos nossos pais naquela época, mas nos esquecemos de como eram os padrões de pensamento, emoção e ação da nossa criança. Veja, o que mudou foi o seu pensamento, até porquê a maturidade te leva a isso. Mas como reagem suas emoções quando se depara com uma situações parecidas com as vivenciadas na infância? E como você age diante delas? Quem você acha que se manifesta primeiro: seu adulto maduro ou sua criança fantasiosa?

Ficou claro como e porque isso nos afeta ainda hoje?

Vamos fazer uma dinâmica para experienciar o que estou falando. Como você se comporta quando fica sozinho? Quando alguém que você gosta sai de perto de você (uma viagem, alguma atividade)? Ou mesmo quando seus pais se afastam?

É confortável. Se sente seguro? Aceita bem?

A maioria de nós, não. O sentimento ainda é o mesmo daquela criança frágil e fantasiosa do passado. E isso é mais comum do que nós pensamos.

E para manter essas pessoas próximas a nós, nos aceitando como somos, nós nos comportamos de uma maneira diferente da nossa natureza. Fazemos o impossível para isso. Disfarçamos nossas contrariedades e até fingimos ser quem não somos. Ainda buscando o amor e aceitação de quem? Dos nossos parceiros? Não. Dos nossos pais.

A nossa criança machucada ainda controla as emoções e até as ações no nosso adulto.

Tiko Santos

Agora que já entendeu o que é e como a nossa criança interior age, eu te pergunto: você já parou para pensar quantas feridas a sua criança ainda carrega? Quantos traumas ela já passou e, ainda hoje, ainda doem? Quantas fantasias malucas ela criou para sobreviver?

Este é o seu adulto. Vivendo desconectado de alguém que fez tanto por ele. Que mudou seus padrões de pensamento mas continua ferido emocionalmente e agindo da mesma maneira de uma criança traumatizada.

QUEM CONTROLA A SUA VIDA?

Se sua vida fosse um carro, quem está dirigindo este carro neste exato momento: a sua criança ou o seu adulto?

Infelizmente, para a maioria de nós e, na maioria das vezes, quem está no controle é a nossa criança. Somos birrentos, carentes, frágeis, manipuladores e cheios de atitudes infantis que sabotam nossos relacionamentos, nosso crescimento e nos impede de evoluir.

QUAL É O NOSSO PAPEL COMO ADULTO

Um conceito que eu gosto de trabalhar com os meus clientes, e que aprendi com meu professor Fernando Freitas, é a diferença básica entre um adulto e uma criança. Uma criança só faz aquilo que ela quer. Já um adulto faz aquilo que precisa ser feito. Mesmo que muitas vezes não seja prazeroso ou traga os benefícios.

Sim, a vida adulta é dura e muitas vezes injusta. Mas pode ser mais leve e prazeirosa se estivermos em conexão com a nossa criança e coerentes com nossos ideais.

OS BENEFÍCIOS DE ME CONECTAR COM A CRIANÇA INTERIOR

Bom… a esta altura você deve estar pensando que você deve abandonar de vez a sua criança, que ela só está te prejudicando e atrasando a sua vida.

NADA DISSO! Você deve se reconectar com ela. Compreender toda a sua dor, medos, angústias, faltas. Hoje como adulto e maduro, você a possibilidade de solucionar isso. Curar as feridas da sua criança interior vai te fazer mais forte, mais seguro e mais importante, mais leve e feliz!

NOSSOS PAIS

Então meus pais são os culpados por minha infância difícil e traumática?

Não. Seus pais são os certos para você, pode ter certeza disso. Eles fizeram o melhor “que podiam” para educá-lo e protegê-lo. Lembre-se que a gente só dá aquilo que pode dar. E muitos dos nossos pais não tinham absolutamente nada para nos dar a não ser a vida.

Olhe para os seus pais com amor e compreensão do que eles “puderam” te dar. A gente sempre faz aquilo que acredita ser o certo. Você também é assim.

Cabe um alerta, aqui!

Quando você se reconectar com sua criança e começar a ter atitudes menos influenciadas por ela, seus pais vão estranhar. Porque suas atitudes infantis os mantém presos ao desejo de serem pais para sempre. E quando houver uma quebra, certamente eles vão brigar para que você volte a ser e se comportar de forma infantil.

Lembre-se, eles também tem uma criança interior e é obrigação de cada um cuidar da sua criança quando adulto. Ao proceder dessa maneira, você será livre para seguir a sua vida como desejar.

Fique firme! A evolução deve ser diária.

RELAÇÃO COM OS FILHOS

Como devemos proceder com nossos filhos para eles não passarem pelos nossos traumas e não serem adultos desconectados da sua criança interior?

O saudável para um pai/mãe é estar adulto. E cuidando da sua própria criança. Dessa maneira nossos filhos podem olhar para gente e aprender como ele deve fazer quando for adulto.

Um filho que convive com pais infantilizados (com a criança interior evidenciada), muitas vezes terá que buscar uma maturidade precoce para ter que cuidar da criança dos pais. Tudo para conseguir contemplar as necessidades infantis dos pais. E isso é uma carga um tanto pesada para uma criança. Se os pais dela, seus avós, não conseguiram suprir isso, e eles como adultos não conseguiram conectar o adulto e a criança interior, ela, como criança, pouco ou nenhum sucesso terá. Será uma tentativa frustada. É como tirar da criança o direito que ela tem a infância.

Mas e os traumas do nossos filhos? E as interpretações distorcidas que ele pode ter da vida e dos nossos comportamentos? Bom, primeiramente é bom olhar para os seus filhos como capazes de lidar com isso tudo. Estar no adulto ao invés de infantilizado, fará eles aprenderem o certo e como devem fazer quando chegar a sua hora de cuidar da própria criança.

As interpretações distorcidas da realidade podem ser suavizadas com bastante diálogo. Tentando sempre mostrar de forma simples a realidade dos fatos. Mas não cobre maturidade e uma compreensão madura dos seus filhos. Eles ainda não a têm.

Minimizando os traumas e experiências desagradáveis. Depois como adulto, ele mesmo terá que lidar com isso e assim como você deve estar fazendo agora, também terá possibilidade de crescer e evoluir.

Quando se é pai/mãe fica mais claro e evidente o quanto precisamos cuidar da nossa própria criança interior. Acolher e curar, para se ser um pai/mãe mais saudável e um melhor exemplo para os nossos filhos.

Nosso objetivo como pais é tornarmos desnecessários para os nossos filhos. Dar o que for necessário para que cresçam e evoluam posteriormente sozinhos. Se eu tenho a necessidade de ter meus filhos sempre perto, eu lhe pergunto: isso é uma necessidade adulta ou infantil?

SEXUALIDADE

Vou começar com uma pergunta, que a essa altura do texto você já deveria responder com certeza: quem deveria ter sexualidade, o adulto ou a criança?

Acertou se você respondeu o ADULTO. Crianças não necessitam ser expostas desnecessariamente e até prematuramente à sexualidade. A carga energética delas já é muito alta, somada as exposições de tv e internet.

Um relacionamento entre casal deve ser entre dois adultos. Dinâmicas infantis entre casais são bastante comuns. Ambos ou um deles tem comportamentos infantilizados. E as cobranças também: você tem que cuidar de mim. Me pegar no colo. Me sustentar. Preciso da sua presença. Preciso do seu carinho, da sua atenção. Você não olha para as minhas necessidades. São apenas frases, mas na boca de quem você as imagina? Escritas ou faladas já ganham um tom infantil.

Em um relacionamento a dois, cada um deve cuidar da sua criança e não delegar ao outro essa função. Se for assim, eu viro pai ou mãe do meu cônjuge e cobro dele o que eu não tive dos meus pais. Vocês já viram ou fizeram algo assim? É para pensar.

É importante olharmos com carinho e atenção para isto, principalmente se você é solteiro(a) e está buscando um parceiro. Quando eu busco um(a) companheiro(a), eu estou buscando como adulto ou criança? Quais necessidades eu estou querendo preencher? Agora que vocês já entenderam bastante sobre o assunto, se estivermos buscando no outro nossas necessidades infantis imagine a confusão que teremos. Certamente será um relacionamento frustado ou abusivo. E a culpa será do outro por frustar nossos anseios em sermos felizes. Crianças não assumem a culpa pelos erros.

DOENÇAS

Você sabia que a sua criança interior pode curar muitas das nossas doenças? Sim, principalmente as relacionadas a sua infância. Muitas doenças são fruto da desconexão da mente com o corpo. E a doença vem como um alerta para o nosso adulto, que existe alguma coisa errada e é preciso olhar para isso e consertar. A doença mostra o problema, e um olhar mais atento também consegue ver a solução.

Como uma criança trabalha o mundo emocional, ela guarda e se cala ou fala e consegue se abrir? Quando uma criança confia nos adultos as sua volta, ela divide seus anseios e suas dificuldades e um adulto paciente consegue auxiliá-la nas suas buscas e desafios infantis. Já crianças que vivem cercadas de adultos sempre ocupados e dispersos, que nunca tem tempo para orientá-las ou ouvir suas queixas e necessidades, vão aos poucos se calando, sofrendo, se fechando para vida, acumulando feridas e traumas, inseguranças e frustrações infantis.

É questão de tempo para acumulo destes “problemas” se manifestarem em forma de doença, mesmo em nós como adultos. Afinal, está tudo aí enterrado nas suas lembranças. Por isso é importante reconectar a nossa criança, ouví-la, acolher. Você vai ver que muitos problemas e até doenças desaparecerão da sua vida. Se você olhar com carinho e reconectar mente e corpo, criança e adulto, muitas feridas podem até perder o significado.

TRABALHO & DINHEIRO

Preciso perguntar se quem deve trabalhar é o adulto ou a criança? Acho que não, né! Bom, fato é que criança não deveria trabalhar e nem ter que se adaptar a um mundo de responsabilidades, horários, compromissos, tensão, relacionamentos difíceis com chefes, colegas e clientes.

No que se relaciona a dinheiro, é a mesma coisa, crianças não tem noção nem de como ganhar, poupar ou fazer bom uso dele. Você deixaria seu cartão de crédito nas mãos de seu filho?

Se você tem dificuldades para acumular e/ou administrar o seu dinheiro conecte-se com a sua criança e tente entender de onde vem isso.

Certamente você já acumulou algumas coisas que tinham um valor muito maior que dinheiro como figurinhas, bolas, bonecas e em algum momento aquilo perdeu o valor para você e o dinheiro também.

E tem ainda as crenças que foram imputadas em nós quando crianças como o dinheiro é sujo, quem é rico não vai para o céu, você tem que suar para ganhar dinheiro, e por aí vai? Você já ouviu isso quando era criança? Creio que sim. E pode ser essas frases bobas que habitam seu sub-consciente e te bloqueiam no caminho da prosperidade.

Ah… achou um bom motivo para finalmente se reconectar com sua criança interior? Se o motivo for este, eu já fico feliz. Essa reconexão trará muitos mais prosperidade, muito mais que o dinheiro.

Chegou a hora de abandonar as atitudes infantis e aguardar que algum adulto venha pagar sua conta. Porque é assim que acontece.

EU USO MINHA CRIANÇA NO TRABALHO

Em algumas profissões é muito bem vindo este lado infantil e uma conexão profunda com a criança interior.

Profissões que requerem criatividade, leveza, liberdade, flexibilidade nossas crianças podem se expressar à vontade. Antes de trabalhar com terapia eu sempre trabalhei com artes e minha criança interior “pintava e bordava” nas minhas criações. Ao criar, era o adulto que ficava de lado e dava liberdade para criança trabalhar.

Arquitetura, artes, publicidade e propaganda, artes cênicas, radialista, jornalismo e tantas outras profissões a criança pode se expressar livremente.

Mesmo como terapeuta eu dou um lugar especial no meu trabalho e deixo a minha criança me emprestar o seu olhar sobre áreas que eu não consigo alcançar. Mas o importante é que meu adulto está sempre no controle. Conduzindo minha criança em segurança. E quando é preciso me expressar é meu adulto quem o faz, sempre olhando para o adulto do cliente, com o respeito que a terapia pede.

É preciso e possível utilizar os dois, a criança e o adulto. Com equilíbrio e sabedoria vem a leveza.

EQUILÍBRIO

O equilíbrio aqui está na criança querer e o adulto fazer. A criança se manifesta com seus desejos e energia única. O adulto ouve, acolhe e faz o que pode e deve fazer. O adulto fará a ponte entre o que se quer e o que se deve fazer.

Unindo nossa criança ao nosso adulto teremos uma vida cheia de vitalidade, desejos, prazer, curiosidade, criatividade e prazer em aprender novas coisas. Como adulto teremos força, energia, potência, sabedoria, proteção e poderemos caminhar mais fortes.

É preciso ouvir nossa criança, curar suas feridas, acolhê-las. Assim juntos a evolução será certa. É só uma questão de tempo.

FERNANDO PESSOA

“A criança que fui chora na estrada
Deixei-a ali quando vim ser quem sou
Mas hoje, vendo que o que sou é nada
Quero ir buscar quem fui, onde ficou.”

Fernando Pessoa

SOLUÇÕES

Bom… depois de tudo isso você deve estar pensando: como eu vou fazer para diagnosticar isso? e como vou resolver? Como é que se faz a reconexão com minha criança? 

O primeiro passo é identificar em si as dinâmicas que citei no texto e aceitá-las sem julgamentos. Não adianta se julgar por algo que você não sabia. Quando o fizer será capaz de identificar essa criança em ti e se felicitar por ela sempre estar aí contigo. Nunca tendo te abandonado. Mesmo tendo passado por tantas coisas.

Fazer terapias é uma ótima forma para entrar em contato com sua criança interior e tomar consciências dos conflitos vivenciados, possibilitando solucioná-los. Tirar a nossa criança do isolamento e não deixá-la só e sofrendo. E  pior se manifestando em sua vida adulta.

Eu gosto muito da constelação como abordagem para mostrar essas dinâmicas e criar possibilidades de cura.

Outra forma que indico é a meditação. Não como os monges que você vê nos filmes. É bem mais simples que isso. Tire alguns minutinhos do seu dia para olhar para essa criança ferida. Sente-se em um lugar confortável e isolado de barulhos que possam te desconcentrar. Desligue o celular ou coloque uma musiquinha para relaxar. Feche seus olhos e faça algumas respirações mais profundas para relaxar. Volte seus pensamentos lá para sua infância, para lembrança mais antiga que você tem. Busque referências (lugares, pessoas, cheiros, sons) e então se imagine ali, criança. Veja as suas feridas, situações que foram traumáticas. Sem a necessidade de senti-las novamente. Apenas observe. Fique no papel de observador. Então imagine seu adulto conversando com a sua criança até tranquiliza-la e dizer que tudo vai ficar bem. 

Trauma a trauma, sua criança se sentirá mais segura com a sua presença e vai dar lugar a uma paz que ela nunca teve e você como adulto não consegue sentir. Não se apresse, faça outras vezes, até sentir que não precisa mais fazer.

Quando este momento chegar, vocês estarão em paz e re-conectados. 

PRESENTE

Transformei este texto em pequenos vídeos. Está tudo lá no meu canal do YouTube. Mais fácil assistir quantas vezes precisar e compartilhar com quem julgamos que precise. E ainda tem uma meditação feita com muito carinho para você praticar por 21 dias.

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